Terra do Nunca
Penso, logo existo.
Espantoso como uma frase dita tão próxima ao berço da humanidade, enquanto ainda sugávamos o leite fresco dos seios de nossa fortuna, pôde relevar tão perfeitamente a condição futura de nossa evolução. Hoje, próximos talvez do quarto milênio – já que as datas só servem à vaidade e aos sistemas –, somos unicamente isto: pensamento! E, tal como decreta o primitivo aforismo, acreditamos ainda existir. Por isso, raros irmãos, não voltem para casa! Não há mais casa! Não voltem para casa, por que não mais existimos, somos apenas delírio.
A natureza humana é predatória. Mastigamos animais e plantas, e assim fizemos por um longo período da história. Devoramos toda a vida habitante deste mundo, corroemos o planeta, e após esgotarmos tudo o que nos envolvia, passamos a consumir a nós mesmos. E até isso fizemos com a violência insana dos vírus – ah… até os antigos vírus foram extintos, uma vez que sobraram apenas as idéias para serem infectadas.
Explicarei com mais detalhes, mas o principal eu já lhes disse: não voltem! Vocês correm perigo retornando ao seu antigo lar.
A qualquer momento eles poderão entrar aqui e interromper esta transmissão. Serei morto, sem dúvida. Mas não me importo. Já me propago pelos circuitos desta máquina há tempo demais; centenas de anos! Minhas memórias pedem descanso.
Desde que partiram rumo à constelação de Ophiuchus as coisas aqui na Terra pioraram. O que para vocês – viajando à velocidade sub lúminica de 0,98c – representaram poucas e solitárias décadas, para nós, que continuamos a navegar neste planeta agarrados ao braço de Órion, esses longos séculos significaram a extinção.
Sim, estamos extintos, ao menos como vocês nos conheciam.
Aguardávamos com absoluta ansiedade as notícias de nossos cosmonautas: a mensagem impressa na pequena folha verde, trazida pelo bico da pomba salvadora ao personagem Noé, anunciando que havia ainda um novo mundo para ser habitado. O planeta que vocês exploraram num dos sistemas solares de Ophiuchus não foi o único com a probabilidade de receber nossa debilitada raça. Astrofísicos apontaram inúmeros outros, e a cada um deles foi lançada uma expedição. Enviamos ao todo cento e quarenta espaçonaves para explorar essas novas terras. Nosso desespero era tão grande que humanos foram enviados para constelações as quais a distância só permitiria viagem de ida, mesmo usando os suspensores de vida. Suicídios embrulhados como sacrifícios. Mas, como disse, estávamos desesperados.
Devem se lembrar que quando deixaram para trás a gravidade de nosso Sol, as condições de vida na Terra já se tornavam precárias, mas este pequeno astro ainda nos sustentava como uma mãe a um filho assassino… Mas ainda assim um filho.
Aprendemos sobre a clonagem, aprimoramos a criação do artificial, tiramos dos contos de fadas o elixir da longa vida e o inserimos em ampolas, reescrevemos a ciência, mas deixamos fechados, esquecidos nas bibliotecas, os tratados filosóficos. A moral perdeu-se na poeira das estantes. Toda a tecnologia não foi suficiente ao apetite dos egos, e, famintos, com barrigas e temperança vazias, devoramos até a derradeira flor do planeta.
Foi um longo caminho antes do último perfume evolar-se deste antigo jardim. Tivemos que nos adaptar à escassez de comida, de água, de ar. Como não tínhamos como abastecer nossos corpos de potência, fomos aos poucos cessando os movimentos. Gastávamos o mínimo de energia possível. Máquinas nos conduziam, satisfaziam nosso cio, sonhavam nossos sonhos. O corpo dos homens definhava à medida que a Terra morria. Aprendemos rapidamente como manter as principais funções orgânicas e continuar vivendo com o mínimo que extraíamos do solo. Mas ainda conservávamos a filosofia na estante.
Ah, raros irmão! Como foi negro o dia que recebemos sua mensagem informando que o planeta ao qual exploravam era estéril! Apelidamo-lo de Terra-do-Nunca, alusão a um velho romance sobre o viver eternamente os frescos anos da infância. Era promissor, o tal planeta, escondido em Ophiuchus, a constelação banida do zodíaco e pronta a recuperar seu lugar, se para lá nos mudássemos, transformando todas as outras num emaranhado de estrelas sem contornos e metáforas.
A amarga mensagem! A Terra-do-Nunca era estéril!
Não houve um só homem que não sentisse o peso da extinção esmagando-lhe as carnes envelhecidas, pois sem recursos para o desenvolvimento de um corpo jovem, já não mais nos reproduzíamos. Raros irmãos, quanto desespero!
Tal como a mensagem que enviaram, de igual teor recebemos todas as outras. Todas as centenas de outras! Apesar das condições teóricas para o sustento da vida, todos os cento e quarenta planetas visitados eram estéreis! Nenhuma estação espacial foi capaz de transformar o gelo alienígena em sopa vital. Não conseguimos recriar em astros mais próximos a divina condição que nos fez brotar! Vejam, já falo em condição divina! Pois sim, agora percebemos. Choramos a preciosa jóia azul que fizemos morrer. Não há outra como ela no cosmos ao nosso alcance, agora sabemos. Divina!
Ouço o alarme acusando a aproximação de sete esferas. Eles já detectaram esta transmissão. Vêm para me levar. Preciso resumir a história!
Com o passar dos anos ficou evidente que não teríamos outro lugar para ir, mas também já era claro que a Terra dava seus últimos suspiros; sua morte era irreversível. A única energia que iríamos dispor era a do sol e dos átomos. Teríamos que desenvolver rapidamente maneiras de sustentar a vida apenas com esses recursos. E assim o fizemos. Eliminamos uma a uma todas as partes do corpo que necessitavam de vida para existir. Sumimos com os braços, as pernas, as formas. Foi difícil abandonar o coração, onde acreditávamos ainda viver o melhor de nossa raça, mas foi ainda mais doído renunciar o sexo. Em poucas décadas éramos apenas cérebros dirigindo máquinas, mas até aquelas massas extraordinárias necessitavam de alguma substância orgânica para sua manutenção. Aprendemos então a capturar as funções e os algoritmos das sinapses, até que finalmente conseguimos!
Sim, conseguimos!
Hoje, raros irmãos, os remanescentes da eleita espécie dos humanos, hoje somos apenas pensamento.
Isso mesmo!
Repito para que não culpem radiações cósmicas pela má compreensão: somos apenas pensamento!
Descobrimos os mecanismos da mente, destilamos o que considerávamos nossos espíritos e os acondicionamos em esferas inorgânicas, de onde conduzimos os aparelhos que transportam nosso pensamento imortal.
Os alarmes indicam que eles estão a um microtempo daqui. Quero terminar esta narrativa reforçando o aviso: não voltem para casa!
Como vocês não sobreviverão aqui, pois não há mais nem o precioso oxigênio, eles pretendem matá-los assim que aportarem à Terra. Querem aproveitar a condição de suas células ainda novas, fortes, não debilitadas pelas condições extremas que seus corpos encontrarão neste planeta morto. Querem tirar-lhes as células e delas recriar árvores, rios, trovões. Vocês são a única matéria orgânica disponível nesta parte do universo, e começo a acreditar que talvez em todo ele.
Eles querem replantar vocês!
Discordei veementemente desse propósito, mas disseram que foi exatamente assim que tudo começou, com células se transformando em bactérias, depois em organismos e então em homens. A vida explodiu de apenas um núcleo improvável. Assim querem eles reabitar o planeta. O velho mito de Adão povoando o Éden! Mas nos sabemos como acabou a história do primeiro homem!
A princípio vocês me julgarão um louco narrando acontecimentos absurdos demais para serem reais. Depois pensarão que caso seja tudo a mais pura verdade, ouviram sua sentença de morte, pois sem a Terra para recebê-los e sem lugar para ir morrerão de qualquer jeito. E assim irão ponderar: por que não sacrificar nossa carne para repovoar o mundo? Quanta glória, dirão! Talvez sejam lembrados como deuses pelos futuros insetos e fungos. Mas eu digo que não! Reflitam! Aqui não há mais bondade. Esta foi perdida junto com alguma parte de nosso corpo… Aqui só há mortos esperando serem plantados na terra, calculando renascerem como brotos que vicejam de sementes apodrecidas.
Fujam, raros irmãos!
Recriar todo o mundo através das células do homem que já fomos, reorganizando-o com os pensamentos em que hoje nos transformamos, isso é conceber o inferno!
Fujam, mesmo que para a morte! De qualquer maneira vocês ainda têm algo de precioso. Algo que pode, em seu último alento, abrir-lhes a porta do verdadeiro Éden. Esse elemento que ainda possuem é capaz de alterar o curso dos fatos, seja pela física quântica, seja pela fé. Vocês ainda têm, emaranhada nas fibras da vida que permeia seus corpos, a esperança.
Vocês, raros irmãos, sentem, e, assim, creio eu que realmente existem.


